Para a minha amiga
Thais Reginas Pinheiro Torres, 02/06/1979 – 19/08/2008
Hoje uma das pessoas (ou “pessoinha”, como ela costumava dizer) morreu em um trágico acidente de trânsito em São Paulo. Como o acidente aconteceu não importa aqui dizer. Simplesmente, por uma dessas ironias do destino, ela estava no local errado e na hora errada. O resultado não poderia ser mais devastador para todas as pessoas que ela cativou com sua simpatia e alegria.
Thais Reginas Pinheiro Torres é irmã de Andressa Cristina. Segundo “consta” no anedotário familiar, o “S” no final de Regina foi uma falha do escrivão. O nome da irmã mais nova foi escolhido para rimar com o sobrenome da mais velha. Filha de Raimunildo e Maria Ayla, amava os pais mais que tudo nesse mundo. E, nos últimos anos também dedicava um amor mais que especial a temporã Babi.
Minha relação com a Thais começa antes de sermos namorados. Foi em 2004, quando ela era a chefe de reportagem da A Voz da Cidade e eu o estagiário recém contratado. Certamente 99% de tudo que aprendi eu devo a ela. Minhas primeiras matérias jornalísticas foi ela que editou. Foi ela que me incentivou e se hoje amo o meu trabalho e o faço com prazer foi porque ela acreditou em mim.
Começamos a namorar em 6 de outubro de 2004, um dia após o resultado das eleições municipais. Ela foi o primeiro relacionamento sério e duradouro que tive. Entre términos e retornos, brigas e reconciliações, ficamos juntos por quase três anos. Nesse período eu só me sentia seguro de mostrar meus textos após serem passados pelo crivo crítico dela. Acredito que 100% de tudo que produzi nesse período ela leu, corrigiu e deu opiniões. Enquanto ela não aprovasse, eu não me sentia seguro para publicar ou divulgar o que escrevia. Confiava cegamente no seu talento e na sua capacidade.
Mesmo depois de separados eu continuei enviando os textos para ela ler. Mas nossas “divergências” chegaram a um ponto que ela não respondia mais os e-mails e eu não esperava mais pela resposta. Confesso que até hoje, ou melhor, até segunda-feira, quando publiquei mais uma matéria, pouco antes de “fechar” a edição do texto, eu pensei: “Será que a Thais vai gostar do texto? Será que ela vai ler?” Tinha esse pensamento para cada matéria que escrevia e sentia uma imensa vontade de enviar todos os textos para ela ler. Mas não fazia mais isso.
Recentemente chegou na minha caixa-postal um email dela dizendo que eu poderia ter escrito de maneira diferente um texto sobre uma matéria das Mulheres de 30 anos. Respondi assim: “Ué? Não sabia que você ainda lia meus textos” e ela respondeu: “Recebo todos os jornais. É meu trabalho lê-los todos os dias”. Como disse, nenhum dos dois dava o braço a torcer. O que posso dizer é que se eu escrevia com a expectativa de que ela lesse, não poderia ter recebido notícia melhor do que saber que ela lia e continuava com seu senso crítico. Thais morreu aos 29 anos.
Sei que na nossa relação eu e ela erramos muito. Me arrependo de cada um deles. Mas um erro, em especial, me corrói cada vez que lembro dele. Após mais uma dessas bobas brigas de casais eu resolvi apagar todos os comentários que ela havia feito para mim no meu blog. Entre esses comentários havia um, feito para me consolar quando minha mãe morreu. Até hoje eu me arrependo de ter apagado este recado e ela nunca me perdoou por ter apagado. Enquanto minha mãe estava doente e nos dias que precederam sua morte, a Thais foi meu porto seguro e àquela que apartou meu choro e minha dor. Hoje sou eu que sofro e choro por ela.
Thais era apaixonada por jornalismo. Ela era a única pessoa que eu tinha certeza que teria um futuro brilhante pela frente. Tudo que ela fez deu certo. E ela fazia tudo bem feito. Sua mudança para São Paulo significou para ela uma vitória pessoal. Lá, dizem, é a terra das oportunidades e em um dos últimos e-mails que troquei com ela, ela me disse: “Felipe estou muito feliz por aqui. Fiz frelas para Abril e para a revista D’uomu. O que eu quero é escrever para revistas. Saí da empresa de assessoria de imprensa em que estava e já estou empregada em outro local, desta vez, gerencio uma equipe. Na semana que vem começo um curso de telejornalismo”. Confesso que me senti orgulhoso do seu sucesso e mais uma vez reforçava a minha certeza de que ela era uma excepcional profissional.
Escrevo essas linhas com lágrimas nos olhos. Triste por perder uma das mais queridas amigas. A única que eu considerava a melhor de todas. A única que eu me espelhava e tinha como modelo de profissional. Enfim, ela era única. E o que mais me angustia é que eu tenho certeza que nunca vou encontrar ninguém igual a ela. Me orgulhava de tê-la como amiga e saber que ela também me considerava seu amigo. O fato de não darmos certos como namorados não impediria que nossa amizade florescesse. Mas a morte impediu.
O que me consola é que tudo que disse nessas linhas eu já havia falado para a Thais. Ela sabia que eu a admirava profundamente. Ela sabia que eu me espelhava nela. Ela sabia que eu gostava dela.
Na noite de ontem fortes foram suas duas amigas Raquel e Jussara. A Raquel mais ainda. Foi ela quem recebeu a ligação do hospital comunicando a morte e “obrigada” a reconhecer o corpo. Raquel teve que segurar uma barra que poucas pessoas conseguiriam. Há apenas três dias a Thais tinha se mudado para a casa de Raquel. E, quem poderia imaginar que passaríamos a madrugada no IML, Raquel, Jussara, eu e os tios da Thais, se preocupando com trâmites burocráticos para liberar o corpo. É inimaginável a dor que sentimos e que ainda sinto.
Foi uma injustiça do destino. Tenho certeza que sim. Mas quem somos nós diante desta poderosa força que rege todas as coisas? O que podemos fazer, senão aceitar os desígnios de Deus como sendo algo certo, quando a lógica indica que este trágico dia nunca deveria ter acontecido?
Sua luz, alegria e inteligência cativava a todos que ela tinha a sua volta. Nunca vi uma menina com tantos leais amigos. Sim, porque ter UM amigo é algo dificílimo. Thais tinha muitos. Todos, sem exceção, foram se despedir dela pela ultima vez no cemitério de Barra Mansa. Incrédulos, todos choravam e se perguntam como algo tão terrível poderia ter acontecido com uma menina tão sensacional.
Thais, não preciso dizer (porque você já sabe), mas eu e todos os seus amigos te amamos muito e vamos sentir muito a sua falta.
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